EGO

"Eu não sou promíscua. Mas sou caleidoscópica: fascinam-me as minhas mutações faiscantes
que aqui caleidoscopicamente registro."

(Clarice Lispector)

terça-feira, 7 de maio de 2013

do inferno das manhãs de terça

Enquanto eu despia os pensamentos às 8 da manhã, o mundo me olhava impaciente, como se eu houvesse maculado a existência do dia azul. Não que alguma chaga me consumisse por fora, mas o que me corroía internamente estava tão explícito que fazia sombrear. E havia um vão entre mim e o resto do dia, como se não pudesse anoitecer. E ao invés de carros e passantes havia paredes e quadros que sangravam, vozes debochadas e papéis amarelados. E eu gritava pelo avesso, muda, alucinada pela rouquidão inaudível que tanto amava. Unhas rasgando as paredes ásperas - sangrando os dedos com as lascas de tinta gasta. O gosto azedo que me subia a garganta era imaginário mas o queimor era real - incendiava-me o corpo inteiro, debatendo-me e me estilhaçando à margem da loucura que me visitava às terças - porque a extravagância gosta das manhãs de terça. E nada ao redor podia conter a demência que pulsava alucinada desde os lábios, porque a boca tremulava débil e repleta de palavras sujas e cretinices incontidas.
E eis que ele surge no meio do nada, como se parido do inferno aberto no asfalto quente. E sem que eu dissesse coisa alguma, ele me beijou os olhos.
 

3 comentários:

Daniele Cristina disse...

Adorei seu texto :D
Beijo.

I'm Nina, Marie, etc... disse...

Oba! Obrigada!
Pode vir aqui ler mais vezes.
:)
Bjs!

Anônimo disse...

Quanto mais eu leio, mais gosto do gosto...
bj
Marilvia