EGO

"Eu não sou promíscua. Mas sou caleidoscópica: fascinam-me as minhas mutações faiscantes
que aqui caleidoscopicamente registro."

(Clarice Lispector)

sábado, 21 de julho de 2012

Saramago

"Homem, não tenhas medo, a escuridão em que estás metido aqui não é maior do que a que existe dentro do teu corpo, são duas escuridões separadas por uma pele, aposto que nunca tinhas pensado nisto, tranpostas todo o tempo de um lado para outro uma escuridão (...), meu caro, tens de aprender a viver com a escuridão de fora como aprendeste a viver com a escuridão de dentro"

[José Saramago - Todos os Nomes]

quarta-feira, 18 de julho de 2012

fome

e o verbo se faz carne
no sonho que quase existe
nessa realidade visceral
de fomes e misérias
e lampejos
presença imperativa
de verbo imperativo
e ultrajado por matéria
coisificando o que há de sonhar
e beber
e pulsar
sangue quente a vazar
desta porção amorfa
de cheiro que se dissipa
com o tempo
[nunca, nunca na memória]
com palavras que fincam desejos
em pele estranha
terra distante de tudo
ardências e dentes trincados
emputecidos com a danação
dessa fome sempre a saciar
no dia seguinte
no próximo outono
em algum tempo.

sábado, 14 de julho de 2012

hospedeiro

a besta que deixas escapar
perde-se na estepe
na imensidão livre das sevícias
e da escuridão da clausura do teu corpo
do peso do teu espírito
de tuas grades de ossos, carne e pensamentos

mas a besta volta
[ela sempre volta]

porque há de sentir fome outra vez.

sexta-feira, 29 de junho de 2012

calares

Em cada palavra caótica
dessa gramática desalinhada
feito carne torta
afoga-se o entendimento
e se beija o pânico
a efemeridade do tempo
uma incredulidade arredia
de rasgar silêncios em brasa
e falares lacônicos
onde o calar é explícito
e o falar, demasia.

quinta-feira, 28 de junho de 2012

tristeza

É triste não conseguir engolir. É triste a voz ficar presa na garganta - esse lugar tão vibrante de sentir. É triste não sentir os cheiros das coisas, não ver cor no dia, não querer sair do lugar. Ou mudar de pele quando ainda não é hora. Ou largar os vícios. Os sonhos. Ou sentir que o chão te falta, que a esquina é mais perto do que você imaginava, que o carteiro não passa mais na sua rua, que a música parou de tocar abruptamente. É triste não desejar. Ou desejar demais sem poder ter. Ou sentir sede, frio ou fome do que te é essencial, do que te faz vivo.
É triste esquecer.

terça-feira, 12 de junho de 2012

assim, bem simples e infinito

Eu queria te dar um presente diferente. É sempre tão difícil dar os presentes mais legais do mundo... Não, não estou falando dos presentes fáceis das vitrines... Eu queria te dar um presente infinito, sem prazo de validade, sempre presente, sempre.
Eu queria te dar um filho. Uma música, talvez. Um deserto inteiro. Três planetas. Aquelas nuvens enormes de tempestades. Todos os sorrisos do mundo. Um ornitorrinco imortal. Uma nave espacial. Uma viagem à Vênus (ou à Marte, a escolher). Um oceano cheio de vida. A fonte da juventude.  Um gato falante. Uma espada forjada por Hefesto.
Eu queria te dar um presente diferente porque te amo. E não é por causa desta data específica ou de qualquer outra que seja um marco nesse lance lindo que nós temos. É qualquer dia, qualquer hora, desde que dê vontade. É simplesmente porque você faz minha vida mais bonita, meus sorrisos mais largos, meus amanheceres mais azuis.

Eu te amo, Heinz Prellwitz.

domingo, 13 de maio de 2012

útero

A gente se sabe mãe quando pousa os olhos pela primeira vez naquela coisinha pequena e indefesa. A gente entende ali que a vida mudou, que a gente mudou. É rápido, muito rápido. E é pra sempre. A gente já sente a primeira dor, a primeira agonia, se apaixona à primeira vista. É um amor diferente de tudo. A gente ama mais do que com o coração: a gente ama com o útero.