EGO

"Eu não sou promíscua. Mas sou caleidoscópica: fascinam-me as minhas mutações faiscantes
que aqui caleidoscopicamente registro."

(Clarice Lispector)

quinta-feira, 24 de junho de 2021

do infinitivo dos dias

Hoje
espelho
corpo roto 
olhar injetado
dentes podres
babando putaria e ódio
meu demônio zombeteiro
é inteiro escárnio e naufrágio
meus desencontros oceânicos 
a perpetuar meu castigo e me
infernizar no infinitivo dos dias
no espaço sem tempo dos verbos
em cantos encantos sem cor.
Espasmos espumas gritos
carne carne carne
pele bile suicídio
embriaguez
cinzas
dor.


segunda-feira, 21 de junho de 2021

sem título

Nas madrugadas silentes
emerge o eu-monstro:
 da escuridão indizível das fomes
vem o desejo de deitar
com o cão que assombra meu sono
e me revira entranhas 
tornando retintos
os sonhares azuis
pelos segundos musgosos
que me arrastam à morte,
me mastigam as vísceras,
me drenam o sangue.
Nas madrugadas silentes,
portanto,
a carne não é mais branca
mas viva lava
e a sombra maltrapilha
se arrasta pelo porão do caos
a se banquetear com sobras
e se esgueirar no mangue dos dias
até ser noite outra vez.
Nas madrugadas silentes
eu [morta] vivo. 

domingo, 6 de setembro de 2020

sábados, domingos e feriados

Funcionamos de segunda a sexta, das 9 às 18. ]O que importa ser sábado, domingo ou feriado, 7 de setembro ou Finados? Estaremos todos mortos ou talvez já estivéssemos desde o início, ao aviso de que o fim estaria próximo - segundo os profetas - ou à noção de que se morre em pequenos bocados enquanto se vive. A pele arde do sal dos olhos e caminha vertiginosamente ao abate dentro do cercado invisível que nos prostra diante do caos, enquanto bundas ardem felizes do sal proibido do mar. Busco um cigarro que não existe há quase uma década. Morro agora ou depois? Da janela espanta-me o que vejo: há um verão dentro do inverno. Penso, então, que ainda não é hora. Falta-me o último desejo.

domingo, 23 de agosto de 2020

gatilhos

Passa das dez. Há um silêncio diferente se desfazendo por dentro da pele, na escuridão das ideias. Uma dor, uma redescoberta em meio à frieza dessa chuva que segue embaçando a janela. Meu demônio insiste em me sussurrar segredos encardidos e vulgares. É sempre noite quando essa sombra me abraça. Com ela vem um regurgitar ansioso e cambaleante de pernas e palavras trêmulas, crepitando nesse inferno particular multissilábico. "Pequena esfinge", lembrei-me. "Devora-me ou te decifro". O frio cede espaço ao rubor-enigma. Pactos-sonhos indissolúveis, livros de cabeceira, quebrantos de poesia nua lida em voz alta. A delicadeza entorpecente das feridas no revés da carne veste de miragem esse vulto feminino. O cansaço não vem das minhas indizíveiss mortes, mas das incontáveis vezes em que não morri. Essa é a minha bússola. Caleidoscopicamente revivo. Sou de novo todos aqueles pássaros. "Devora-me ou te decifro."

segunda-feira, 3 de agosto de 2020

do cárcere

Do viver maculado de vícios
resta um punhado de impulsos,
um azedume assombroso e mórbido,
um queimor translúcido
contido nos quatro cantos do claustro
na brancura fria e limpa do desespero-dor
de carne que chama rua, tormenta, multidão;
vibrando um querer obscuro e pulsante
pontilhado de maresia obscena e lamacenta
tal qual o indizível desejo de morte,
do abraço virulento e sem rosto
à espreita num beco sujo
ou na esquina cheia de vivos-mortos,
a encruzilhada espera tictacteando,
sincronizada às batidas do peito,
contando os segundos para o último beijo -
seco, amargo, vazio -
despedida na infinita escuridão.

quarta-feira, 23 de outubro de 2019

dos esgares e maledicências de minha boca de puta

Olha.
Diz em voz alta teus pensares.
Não me julgues os maus modos,
o escárnio, o palavreado maledicente,
minha embriaguez constante.
Não censures minha boca de puta,
minhas não-vergonhas,
a carne vertigem vibrante.
Olha minhas profundezas,
meus abismos,
essa escuridão que me toma repetidamente
e fulmina meus esgares
grunhidos
arfares.
Lava minhas obscenidades caudalosas com tua língua.
Afoga-te, inferno: engole-me inteira.