EGO

"Eu não sou promíscua. Mas sou caleidoscópica: fascinam-me as minhas mutações faiscantes
que aqui caleidoscopicamente registro."

(Clarice Lispector)

sábado, 17 de maio de 2014

[des]poesia

Não há poesia naquele canto da casa
há um desvio antes de lá
de onde blindo o que vaza dos poros
e a náusea constritora engole as horas
maltratando o tempo.
E pelo chão da cozinha os dejetos-destroços
de maltrapilhos desejos
vagabundas lembranças inexistentes
de orgias que não mancharam as paredes
nem deixaram marcas visíveis na matéria que me cobre
que me cerca e me envolve
do que sou e não sinto e sinto quando estou.
Não há poesia no canto do corpo
onde não houve pouso
onde não houve dano, ferida ou dor
onde o esquartejamento de amor não causou repulsa
onde não houve ódio ou confissão
do indecente desejo de matar-morrer
desses cantos de boca monossilábicos
e ácidos e famintos do que é secreto aos olhos.
Não há poesia sem confissão.
Não há poesia.
Não há.
Não.

quarta-feira, 24 de julho de 2013

sobre o aniquilamento e os insultos de amar

Arrasto meu desejo pra esse teu canto distante das minhas coxas, das minhas enfermidades, da minha febre. E me interessas, me intrigas, me atrais, me confundes. Afogo meus apetites no fundo da tua meia garrafa, na borda do copo que tocaste com os lábios, e minha loucura quer te abraçar até a morte. Grito para que nossos fragmentos se unam e nossos remendos não sintam mais as dores de qualquer vazio que se apresente.
Sê obsceno. Canta em minha língua impropérios, desepeja-me teus insultos de amar. Sê fraco. Mostra-me teu lado gasto. Sê morte e dissipa minha angústia, meu medo que o mundo termine nesse abismo imaginário e espacial, sem que possa amanhecer infalível no tormento de teus transbordares, na calmaria dos teus abraços. Embriaga-me e me consome. Aplaca meu desejo hemorrágico e fatal de que me aniquiles à margem do mundo.
Aniquila-me.

sábado, 20 de julho de 2013

resposta ao aprochego

e se entre as partes
houver fome
que se devorem
cruéis criaturas
de chãos e outros vícios
prazeres roubados
de minúcias
e pequenos tilintares
entre as partes
- entreolhares.

quinta-feira, 4 de julho de 2013

about lightness

“When we want to give expression to a dramatic situation in our lives, we tend to use metaphors of heaviness. We say that something has become a great burden to us. We either bear the burden or fail and go down with it, we struggle with it, win or lose. And Sabina - what had come over her? Nothing. She had left a man because she felt like leaving him. Had he persecuted her? Had he tried to take revenge on her? No. Her drama was a drama not of heaviness but of lightness. What fell to her lot was not the burden, but the unbearable lightness of being.”
- Milan Kundera, The Unbearable Lightness of Being

terça-feira, 4 de junho de 2013

das cartas de amor que quase escrevo

Deveria te escrever uma carta de amor. Uma carta mesmo, de páginas de caderno com pauta, folha escrita frente e verso. Dessas que a gente guarda por anos e se emociona toda vez que lê. Dessas que, ao final da leitura, trazemos pra junto do peito com lágrimas nos olhos. Uma carta longa no lugar dos bilhetes. Eu pulverizo meu amor nos bilhetes, mas precisava mesmo era encher teus olhos - e teu peito - dessa imensidão que sinto. Preciso dizer tanta coisa, mas no final parece que nunca encontro palavras que digam exatamente o que quero, cheias dessa coisa diferente que você me faz sentir. É como se você me engravidasse o tempo todo, como se me fizesse um filho a cada beijo, a cada sorriso, a cada suspiro colado na minha boca. Sim, eu acho mesmo que você me engravida. Eu me sinto fértil tempo integral, tonta, eu derreto pelos cantos e meus olhos brilham como os de uma adolescente. Sinto friozinho na barriga quando está na hora de você chegar. Meu coração dispara quando alguém passa usando o seu perfume. E o teu jeito de me olhar sério quando sente saudade me causa uma comoção indescritível, como se eu também pudesse estar ao mesmo tempo dentro e fora de você. Nós fazemos pactos de amor em silêncio, e aí eu percebo que as palavras não valem tanto assim. Eu entendo melhor quando você me beija e me expresso melhor quando estou enfiada em tua cama. Então é isso. Talvez eu te diga pouco porque te digo muito mais quando não falo. Talvez por isso te escreva apenas bilhetes - porque todo o resto eu te digo em carinhos.
 

terça-feira, 7 de maio de 2013

do inferno das manhãs de terça

Enquanto eu despia os pensamentos às 8 da manhã, o mundo me olhava impaciente, como se eu houvesse maculado a existência do dia azul. Não que alguma chaga me consumisse por fora, mas o que me corroía internamente estava tão explícito que fazia sombrear. E havia um vão entre mim e o resto do dia, como se não pudesse anoitecer. E ao invés de carros e passantes havia paredes e quadros que sangravam, vozes debochadas e papéis amarelados. E eu gritava pelo avesso, muda, alucinada pela rouquidão inaudível que tanto amava. Unhas rasgando as paredes ásperas - sangrando os dedos com as lascas de tinta gasta. O gosto azedo que me subia a garganta era imaginário mas o queimor era real - incendiava-me o corpo inteiro, debatendo-me e me estilhaçando à margem da loucura que me visitava às terças - porque a extravagância gosta das manhãs de terça. E nada ao redor podia conter a demência que pulsava alucinada desde os lábios, porque a boca tremulava débil e repleta de palavras sujas e cretinices incontidas.
E eis que ele surge no meio do nada, como se parido do inferno aberto no asfalto quente. E sem que eu dissesse coisa alguma, ele me beijou os olhos.