Deveria te escrever uma carta de amor. Uma carta mesmo, de páginas de caderno com pauta, folha escrita frente e verso. Dessas que a gente guarda por anos e se emociona toda vez que lê. Dessas que, ao final da leitura, trazemos pra junto do peito com lágrimas nos olhos. Uma carta longa no lugar dos bilhetes. Eu pulverizo meu amor nos bilhetes, mas precisava mesmo era encher teus olhos - e teu peito - dessa imensidão que sinto. Preciso dizer tanta coisa, mas no final parece que nunca encontro palavras que digam exatamente o que quero, cheias dessa coisa diferente que você me faz sentir. É como se você me engravidasse o tempo todo, como se me fizesse um filho a cada beijo, a cada sorriso, a cada suspiro colado na minha boca. Sim, eu acho mesmo que você me engravida. Eu me sinto fértil tempo integral, tonta, eu derreto pelos cantos e meus olhos brilham como os de uma adolescente. Sinto friozinho na barriga quando está na hora de você chegar. Meu coração dispara quando alguém passa usando o seu perfume. E o teu jeito de me olhar sério quando sente saudade me causa uma comoção indescritível, como se eu também pudesse estar ao mesmo tempo dentro e fora de você. Nós fazemos pactos de amor em silêncio, e aí eu percebo que as palavras não valem tanto assim. Eu entendo melhor quando você me beija e me expresso melhor quando estou enfiada em tua cama. Então é isso. Talvez eu te diga pouco porque te digo muito mais quando não falo. Talvez por isso te escreva apenas bilhetes - porque todo o resto eu te digo em carinhos.
EGO
"Eu não sou promíscua. Mas sou caleidoscópica: fascinam-me as minhas mutações faiscantes
que aqui caleidoscopicamente registro."
(Clarice Lispector)
terça-feira, 4 de junho de 2013
terça-feira, 7 de maio de 2013
do inferno das manhãs de terça
Enquanto eu despia os pensamentos às 8 da manhã, o mundo me olhava impaciente, como se eu houvesse maculado a existência do dia azul. Não que alguma chaga me consumisse por fora, mas o que me corroía internamente estava tão explícito que fazia sombrear. E havia um vão entre mim e o resto do dia, como se não pudesse anoitecer. E ao invés de carros e passantes havia paredes e quadros que sangravam, vozes debochadas e papéis amarelados. E eu gritava pelo avesso, muda, alucinada pela rouquidão inaudível que tanto amava. Unhas rasgando as paredes ásperas - sangrando os dedos com as lascas de tinta gasta. O gosto azedo que me subia a garganta era imaginário mas o queimor era real - incendiava-me o corpo inteiro, debatendo-me e me estilhaçando à margem da loucura que me visitava às terças - porque a extravagância gosta das manhãs de terça. E nada ao redor podia conter a demência que pulsava alucinada desde os lábios, porque a boca tremulava débil e repleta de palavras sujas e cretinices incontidas.
E eis que ele surge no meio do nada, como se parido do inferno aberto no asfalto quente. E sem que eu dissesse coisa alguma, ele me beijou os olhos.
terça-feira, 30 de abril de 2013
dos silêncios compartilhados em lugares públicos
Descobri no meio dessa minha bagunça errante o teu silêncio. Foi mais silêncio que tudo, confesso. Porque eu não precisava que me dissesse muita coisa ou que me fizesse falar. E os nossos silêncios se encontraram na mesa do almoço, enquanto eu tentava engolir a comida que nem tinha gosto. E eu me sentia um pouco fria, um pouco morta. E vestia aquela saia estampada que você tanto gosta. E me lembro que não conseguia te olhar, que falava baixo olhando a comida que não me apetecia tentando conter o choro. Sentia uma aspereza estranha por dentro. Conseguia ouvir melhor a conversa das outras mesas do que a minha própria voz. Não sei de fato se você conseguia entender tudo o que eu falava - que foi bem pouco, na verdade - mas o fato é que você estava lá. Não me analisou. Não tentou salvar minha vida. Não me prometeu uma cura milagrosa pr'aquela dor estranha. Simplesmente estava lá e nem queria ser notado. Dava meios sorrisos toda vez que meus olhos se levantavam em sua direção. Eu pensava, honestamente, que estava tão fodida da cabeça que talvez você não conseguisse achar muito sentido no que eu dizia, porque eu parecia sem sentido até pra mim. Eu precisava exatamente de um silêncio compartilhado de cumplicidade velada. Fez sentido - tudo fez sentido. E te amei ali, na calmaria no meio da multidão.
segunda-feira, 29 de abril de 2013
dos gostos de quando me beija o mundo
Gosto da tranquilidade da tua voz. Gosto do cheiro que me deixa na camisola mesmo três dias depois de ter estado na tua cama - porque teu cheiro mora em mim, em cada canto da minha memória. Gosto do teu desejo de me fazer um filho. Da tua vontade de me machucar quando diz que me ama, quando me olha como se quisesse me engolir viva - de como me engole viva. Gosto do teu disfarce de calmaria. Gosto dos dias que estão por vir. Do roçar da tua barba nesse espaço entre meu nariz e meu lábio superior, dos seus dentes na minha pele. Do gosto que me deixa quando me beija o mundo.
sábado, 13 de abril de 2013
meios felizes sem happy end
Dos destroços atravancados pelo caminho, surgem-me doçuras de dias passados. A cor indecifrável que te pintava os olhos. A morte inesperada - afinal, quem espera a morte? As danças prometidas em bailes mudos. A paz remoldada em turbulência arredia e salgada. Porta-retratos virados para as paredes encardidas da memória. Os dias ensolarados de saudades e presenças. O mar revolto. As tempestades sequestradoras de sonhos bonitos - porque o mau tempo eventualmente é algoz de alguma beleza azulada. Uma história bonita sem happy end. Nem toda história precisa de final feliz pra ser contada pelo tempo que a memória permitir. Porque sempre fomos criaturas mais de meios do que de fins. Inteiras enquanto estivemos lá. Prontas a continuar [inteiras] - outras histórias. Ponto final.
terça-feira, 26 de fevereiro de 2013
untitled
i see myself melting into a dark river of lust and poetry
as my tongue dances around like a thousand crows
and my soul gets darkened by your misty eyes
going round and round my skin
while the abyss - the sweet rotten abyss - spoils broken rhymes
so that whispers, vows and promises become necessarily unspoken
as the day dies into your lovely lips
as love fades like dust in your weirdest dreams
and i fall from an unknow sky to reach our private hell
and to grab your entrails
to devour your will
your power
your words
and make them all mine
to find death
and in death
find that i am alive.
as my tongue dances around like a thousand crows
and my soul gets darkened by your misty eyes
going round and round my skin
while the abyss - the sweet rotten abyss - spoils broken rhymes
so that whispers, vows and promises become necessarily unspoken
as the day dies into your lovely lips
as love fades like dust in your weirdest dreams
and i fall from an unknow sky to reach our private hell
and to grab your entrails
to devour your will
your power
your words
and make them all mine
to find death
and in death
find that i am alive.
segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013
dos infernos que nos beijam em manhãs nubladas
Por trás daquela neblina que cobre o verde dos morros nesta estranheza matinal há um silêncio revelador. Revela-me as coisas que não quero saber - minhas cegueiras propositais. Finjo-me inconsciente, ignorante, anestesiada. Beijam-me infernos minha fronte vermelha do sol que ainda não veio ao mundo. Toco fantasias e loucuras em notas lamuriosas no menor violino já visto. Ensino-te aquela dança - e tens dois pés esquerdos. Não te prendo porque não sou real. Sou uma projeção intermitente de teus medos e desejos, feito manhãs nubladas que se arreganham em sol. É azul este teu céu? É real teu falar de homem maduro? Sou teus pensamentos sombrios de amor. Tu não sabes se existo, mas me amas em silêncio. Tu me amas só pra ti, em tua cabeça racional e teu peito dilacerado. Sabes a profundidade de meus olhos e meus cheiros através de teus sentidos imaginários - adivinhação. Por isso lambo teus infernos - sou os dez infernos escondidos atrás daquela árvore grande. E refugio minha insanidade na tua - mas de que jeito se de fato não existo? Sou a linha tênue entre tua saliva e a carne que te faz salivar. Sou nós dois. Sou tuas mazelas. Tuas intrigas. Teu desespero. Tua rigidez. O gozo. Teu desejo mundano.
Sou nós dois. E existimos apenas dentro de ti.
Sou nós dois. E existimos apenas dentro de ti.
Assinar:
Postagens (Atom)