Oferto a ti meus delitos de amar - minha carnificina. A delinquência incontrolável que me prostra aos teus pés, tua cintura. E me farejas sacrifício e rosnas doces brutalidades e glutonices, porque tua fome é o que busca minha carne mercenária. E tu me sentes pronta na ponta de tua língua vibrante, no silêncio ensurdecedor dessas madrugadas ao meio-dia, meia-tarde, meia-noite. Eu te faço engasgar na própria fome, soluçar com a própria saliva enquanto te banqueteias em mim - inteira carne, pele e vísceras. E te farto de peito aberto e coxas escancaradas, borrada de vermelho na imensidão da mesa vazia. E meus olhos suicidas te atiçam o comedimento e te florescem a crueldade que nasce na penúria de quem deseja: espetáculo feroz de tua virilidade.
EGO
"Eu não sou promíscua. Mas sou caleidoscópica: fascinam-me as minhas mutações faiscantes
que aqui caleidoscopicamente registro."
(Clarice Lispector)
quarta-feira, 11 de abril de 2012
terça-feira, 10 de abril de 2012
instinto
Gosto de algum método. Não de todo ele inscrito pelos ares, porque o método exagerado tende a nos castrar, a nos tornar frios. O instinto é um bom método. A antecipação das coisas. O sentir antes da materialização dos acontecimentos. O antever. E há quentura no instinto. Há um quê de bonito. Fluidez. Não, não é a ansiedade da véspera: é o pressentir, ter essa sensibilidade e conexão com o que te envolve, com aquilo que te espera, com o que não está exatamente ao teu lado ou ao alcance dos olhos. É acreditar não no que está, mas no que é. É ser, mesmo sem estar. É ser ciente, ser completo, ser presente.
O instinto é a ousadia de ter fé em si mesmo.
segunda-feira, 19 de março de 2012
infinitude
Há aqui estes cristais brutos. Estas pedras mal lapidadas e inacabadas. Um espírito atônito com uma aspereza bonita de sentir. Um corpo que se estira e esvazia e grita e cala a saudade do porto desconhecido, do que ainda está por vir. A saudade da completude do mundo que já era inteiro antes que se descobrisse mundo, com suas frestas e ranhuras e desfiladeiros - como aparenta quebrado o que é inteiro. E te antecipo resquícios de um futuro que salta aos olhos e me eletrifica a carne. Porque tudo é aspiração, delícia, erupção, maremoto. Tudo é espuma. Ganir. Abrigo dessa sombra que me protege e converte em outra - em outras. Sou toda humanidade e infinitudes. Desejos. Respostas gritadas no infinitivo - sem tempo - da tua língua.
quinta-feira, 15 de março de 2012
sem título X
no meio da noite acordada de hora em hora
há o silêncio que fere o espaço
que consome os nervos do corpo
não chove, não venta, não há estrela cadente
é escuro apenas
vazio de falta de sonho
silêncio de sonhares repletos de quereres
quereres de teus olhos tuas células teus atritos
teus desesperos de ser na esquina do mundo
onde o vento não faz a curva
porque é sempre reto quando olhas
é tudo ali e por toda a parte
saudade, fome, amares descoordenados
lonjura.
amor apenas.
há o silêncio que fere o espaço
que consome os nervos do corpo
não chove, não venta, não há estrela cadente
é escuro apenas
vazio de falta de sonho
silêncio de sonhares repletos de quereres
quereres de teus olhos tuas células teus atritos
teus desesperos de ser na esquina do mundo
onde o vento não faz a curva
porque é sempre reto quando olhas
é tudo ali e por toda a parte
saudade, fome, amares descoordenados
lonjura.
amor apenas.
quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012
tempo
Passa rápido esse menino-tempo. De pensar, já passou. Passou correndo. O futuro começa quando termino a frase - presente, torna-se agora. Mas acaba de correr dos lábios que balbuciaram "agora" - eis que se torna passado. O que é o tempo, então? Esse moço, o tempo, é apenas um instante. Uma impressão ou antecipação do que virá no momento em que passa; um adeus ao que se vê e uma saudação ao que surge na rota de colisão. Eu amarei [em um minuto], eu amo [neste instante], eu amei [um minuto atrás]. Três tempos em sessenta segundos: parece-me tudo presente em sentidos e impressões. Passa rápido esse tempo-menino. Passa rápido porque não existe.
O tempo é uma dicotomia atemporal.
Eu amei [há vinte anos], eu amo [neste instante], eu amarei [conjugado no futuro sem prazo]
quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012
chuva
depois da chuva
vi-me inteira
rasgada de nuvem
porque gira o céu
no céu da tua boca
- meu sonho azul -
memória
convulsão
homem-vertigem
movediço
via de fuga escarlate
- foge pra dentro de mim -
depois da chuva.
vi-me inteira
rasgada de nuvem
porque gira o céu
no céu da tua boca
- meu sonho azul -
memória
convulsão
homem-vertigem
movediço
via de fuga escarlate
- foge pra dentro de mim -
depois da chuva.
quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012
3:30
Há um monstro residente em mim. Onde vivem as coisas selvagens. Onde não há palavras bonitas. Onde não há palavras. Onde sou só instinto, bicho, fome, morte. Onde sou só esconderijo, caverna, lama. Onde sou lava. Onde sou escuro. Vazio. Tremor. Temor. Guerra. Tristeza. Insônia.
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