EGO

"Eu não sou promíscua. Mas sou caleidoscópica: fascinam-me as minhas mutações faiscantes
que aqui caleidoscopicamente registro."

(Clarice Lispector)

terça-feira, 4 de dezembro de 2012

"o quão estranhos e profundos são os desejos"

Penso constantemente em me refestelar em tuas escuridões. Há muita fome em cada palavra que cala teus pensamentos pornográficos e indizíveis, teus cantos cobertos de musgo e vergonha, teus desejos pavorosos que se libertam da castidade das palavras limpas e me encontram em comas lúcidos e esquinas do teu espelho - porque és minha imagem. Embriago tuas ideias quando te espelho semelhanças e te [re]descobres em mim, em cada palavra-encontro-vocálico. Traduzo teus quereres quando explicito os meus, quando descrevo tua ausência-presença, tua lonjura, tua forma de me amar mesmo sem me saber tua própria carne, tua bebedeira, tua bile. Estou em tua boca, em teus fervores por baixo da roupa, por baixo da pele, dentro dos ouvidos que inventam minha voz, minha rouquidão, meu gargalhar. Refestelo-me em tuas escuridões que são minhas, quando sou sangue e mato pausadamente tuas esperas e te faço sofrimentos e gozos imaginários intermitentes. Quero engolir o que tens a me dizer garganta adentro, com tua mão a me prender o fôlego e teus dentes a me travarem a língua. Refestelo-me em teu sexo quando toco o meu. Digo putarias e canalhices que ouves solitário na madrugada escura do teu quarto, com teu vinho e teus blues. Amo cada curva dos teus desejos estranhos, tua ausência, tua retidão, teu abismo. Desejo teu cansaço, tua raiva, tua insônia. Tu me intrigas e te devolvo enigmas. Pulverizo-me libido em cada sílaba que teus olhos me veem [imaginariamente] balbuciando.

sábado, 24 de novembro de 2012

Sabe, eu conheço esta mulher. Podes pensar que ela te salvará de tua miséria, de teus naufrágios e torturas pessoais, de tuas culpas, de tuas tempestades. Podes até esperar que seja ela a te puxar do fundo, do ralo, do inferno. Mas ela não quer te salvar de nada. O que ela quer é passear sorrindo no meio de teus escombros, passar os dedos sobre tuas cicatrizes, lamber teu sangue. Ela te quer despedaçado e imperfeito, porque as coisas certas e perfeitas são enfadonhas, causam náusea, não existem. São mentiras. O inferno é onde te deitas, e ela, meu caro, é o diabo.

quinta-feira, 15 de novembro de 2012

amares

Cada vez que me pergunto "o que é o amor, afinal?" penso que o amor não existe. Este amor, circunscrito na palavra, é estranho, limitado, reto. Existe, sim, a forma de amar, o meio de querer cheio das curvas de cada um. Então o amor é ação. É verbo. É amar, ao invés de amor. O substantivo é conceitual e não impulsiona. O verbo exige movimento, postura, direção. Exige que eu faça algo. Empurra-me para o outro. O amor, este conceito estático, não me interessa.  Eu preciso de batalha, combate, força. Talvez seja por isso que os relacionamentos morram: vivem mais no conceito do que na ação. O amor é pano de fundo, é cenário. O amar é o que eu faço ao outro a cada instante. E não é isso, afinal, que nos une ou separa? 

Cada um sabe o que é amar para si.

"Soneto XVII  - Pablo Neruda

Não te amo como se fosses rosa de sal, topázio
ou flecha de cravos que propagam o fogo:
te amo como se amam certas coisas obscuras,
secretamente, entre a sombra e a alma.

Te amo como a planta que não floresce e leva

dentro de si, oculta, a luz daquelas flores,
e graças a teu amor vive escuro em meu corpo
o apertado aroma que ascendeu da terra.

Te amo sem saber como, nem quando, nem onde,

te amo diretamente sem problemas nem orgulho:
assim te amo porque não sei amar de outra maneira,

senão assim deste modo em que não sou nem és

tão perto que tua mão sobre meu peito é minha
tão perto que se fecham teus olhos com meu sonho."

sexta-feira, 9 de novembro de 2012

sobre a imagem que arrebata meu outro eu

Há de ser bonito. "Há de ser" no tempo indeciso entre palavras doces e rosnares, entre o tempo da calmaria e o tempo da violência do teu instinto macho. Há de queimar. Há de nos arrastar a algum canto desconhecido onde as imagens se desfazem, nuas, criando novas imagens no fundo dos olhos. Hei de quebrar tua espinha e te dizer horrores porque sou feita de remendos. Há de ser turva a água do banho. Há de ser imperfeito. E haverá barulho, medo, escândalo, horror. Haverá gozo. Ternura. Haverá um lábio inferior entre teus dentes. Há de ser inflamado, dolorido. Há de ser retrato a cena da memória. Há de ser intenso, mesmo que a brevidade assole o tempo. Há de ser grande. Há de ser muito. Há de ser loucura, combustão, orgia. Há de ser romance. Há de ser tudo. E também há de ser nada. Há de ser desconhecimento de espera. Há de ser ânsia, ebulição, tormento. Hei de amar teu chão, tuas paredes, tuas frestas. Há de ser eu e tu. Enfim, nós.

segunda-feira, 29 de outubro de 2012

lugares

A sede estranha arranha o pulso que bate débil. O tempo tilinta o vidro transparente - não, não são cristais. Mas o som agudo ecoa no espaço vazio - poderia tudo estar repleto de sons e lugares e desejos. Mas há sombras e nas sombras, refúgio. Há um esconderijo de não-acontecimentos e minúcias em cada minuto. Há lábios-pinturas-esboços de mãos salientes - porque sempre brotam dos lençóis loucuras monossilábicas. Há o borbulhar do futuro ou do destino - o que mais agradar em tempos de cólera e miséria. Há amor. Há flores desbotadas em janelas fechadas. Ventos, ventos deslizantes de um lugar ao sul, inferno alucinado de confissões, metáforas indecentes do dia.
Há amantes. Amantes apenas.

citando Anaïs

"A tua beleza submerge-me, submerge o mais fundo de mim. E quando a tua beleza me queima, dissolvo-me como nunca, perante um homem, me dissolvera. De entre os homens eu era a diferente, era eu própria, mas em ti vejo a parte de mim que és tu. Sinto-te em mim. Sinto a minha própria voz tornar-se mais grave como se te tivesse bebido, como se cada parcela da nossa semelhança estivesse soldada pelo fogo e a fissura não fosse detectável."


[Anaïs Nin - A Casa do Incesto]

terça-feira, 23 de outubro de 2012

minuano

meu caminho é encontrar o minuano
litoral sul da Via Lactea
seguir de mãos dadas
até o primeiro círculo do inferno.