EGO

"Eu não sou promíscua. Mas sou caleidoscópica: fascinam-me as minhas mutações faiscantes
que aqui caleidoscopicamente registro."

(Clarice Lispector)

domingo, 4 de setembro de 2011

dois

Eu, essa primeira pessoa explícita em absurdos verborrágicos, confesso amor, absurdos e doçuras. E essa paz esquisita que me entra aos poucos pelas fendas corporais e por portas de alma, não me ilude ou me engana ou dissimula. É uma paz ardida que cicatriza mais que feridas, cicatriza abismos e assombros. E o começo tem um quê de meio das coisas, onde os fins não são tão explícitos. É tudo tão agora, tão corrente, que não há uma razão que se faça necessária nas coisas bonitas. Elas simplesmente o são. E eu respiro fundo para sentir a lentidão do ar se deslocando para dentro, como se tudo fosse durar para sempre - porque a infinitude de ti me agrada a ideia, me agrada os sentidos. Agita-me o corpo tua alegria de olhos esverdeados de gozo, marcados do cansaço que deixamos à porta do mundo - olhos de sal corrente que me desorientam o discurso e me guiam vida afora. Você - bússola, mapa, certeza. Destino encontrado. Minha releitura da fé¹.


¹ Pequena confissão após reencontro. Sorrisos cadentes.

quarta-feira, 24 de agosto de 2011

drops

O mais bonito nisso tudo é me ver através dos olhos do outro - como se pudesse me enxergar a partir de um corpo que, mesmo não sendo meu, está tão contido em mim quanto essa carne que me cobre o espírito.

sexta-feira, 19 de agosto de 2011

Clementine e o fantasma deposto

Subiu a rua até os pulmões gritarem. O ar gelado e seco da madrugada sufocava mais do que sua vida inteira. E o nojo de ser quem era podia simplesmente ser expulso aos gritos, aos solavancos, às bofetadas. Era exorcizada todas as noites aos pés dos desejos alheios, onde escondia e amenizava sua culpa de menina. Cada vez que imaginava que se tornar mulher havia sido lento, doloroso, profundo, sentia vontade de chorar. Perdeu-se entre lençóis sem nome, sem rosto, sem memória. Guardava apenas uma memória do que pensou ser amor. E o que era bonito havia sido jogado na sarjeta com o que ela tinha de inocente, junto a um punhado de mentiras que sua meninice teimava em acreditar.
Clementine estava novamente naquele canto escuro dos seus sonhos, onde monstros e fantasmas a assombravam e o grito ficava contido na garganta. Mas o gosto amargo dissipava-se lentamente na boca, o suor secava na pele, e o frio ia embora aos poucos. O que trouxera aquelas sensações em tempos distantes não mais existia. E estava ali, parada, olhando aquela sombra se desfazer, virar pó, sumir no tempo abaixo da terra, debaixo dos pés. E entendeu, enfim, que o fantasma só existia porque ela o havia inventado.  Entendeu, mais claramente ainda, que cabia a ela fazê-lo morrer de uma vez por todas. E, pela primeira vez em todos aqueles anos, sentiu-se leve. E o sonho ganhava cores aos poucos, ganhava outros sentidos, mas apenas um lugar: a paz dos sinos que cantarolavam ao vento, o lugar de palavras sussurradas que a chamavam para a realidade doce de quem sai do sono, do estado de dormência, do mundo turvo.

Clementine sorriu ao abrir os olhos - havia despertado do sonho estranho para sorrir ao mundo. Lá estava ele, dormindo bonito, dormindo em paz. Não, ele não era irreal. Não era uma invenção louca das suas frustrações. Não era plástico - não ele. Ele existia, existia e estava ali, ao seu lado, esperando que ela se libertasse de seus fantasmas, de seus próprios demônios. Esperava com o tempo. Esperava para poder, enfim, fazê-la sorrir brejeirices. Esperava para poder engravidá-la a cada toque, a cada beijo, a cada olhar cúmplice. Esperava para fazê-la feliz sem culpa ou remorso, sem mentiras, sem promessas. Simplesmente esperava. E a encontrou inteira. E ela se sentiu inteira. E ele havia feito aquela mulher descobrir o que era o gozo perfeito, a paz desmedida de quem morre e renasce pleno a cada instante compartilhado. Clementine sentiu tudo o que achava que não existia. Sentiu-se perfeita por dentro de sua loucura, de seus meios tortos, de sua irracionalidade. Sentiu que havia uma mulher diferente sendo parida dela mesma, uma outra que não sentia medo, que ria dos fantasmas insistentes que não mais faziam seu pulso acelerar. Ele não mentia - mesmo quando não falava, confessava com os olhos o que precisava ser sentido, muito mais do que dito. E jazia em seu sono honesto, murmurando palavras que não dizia de olhos abertos. E ela sorria, sorria com o sol que iluminava os olhos pela fresta verde da janela do quarto da árvore. E os lábios do outro, entre suspiros e palavras desencontradas, repetiam a primavera que brindava as outras estações.

Clementine não sentia mais medo. Estava plena de si.

domingo, 24 de julho de 2011

madrugada

O espírito desliza; o corpo deságua; desperto submersa em água e sal. Sinto tua falta nessa cama - sinto falta onde quer que repouse, porque careço de calor. Mas ouço tua voz do outro lado da porta e me pacifico. Vou me ninando com as palavras abafadas que não entendo. Você está logo ali e bem aqui, fundo, lento e grave. Mas só durmo profundamente quando você volta e se encaixa no teu espaço nessa cama, quando molda teu corpo no meu e diz que logo amanhecerá. E me beija boa noite.

quinta-feira, 21 de julho de 2011

abismo, loucura, memórias recentes

Madrugada. Caminho no frio orvalhado das pedras cintilantes, nua, pés descalços, trêmula, verde. Eu sereno. Bato às portas pesadas dos sonhos alheios, às portas de saída do meu próprio labirinto. Ninguém responde. Caminho soluço tropeço caio levanto sigo. Sigo pelo cheiro que vem no caminho do lado de fora - lado de fora de mim. Falta-me o ar. Não há pensamentos, há somente sensações de olhos cerrados enquanto tua língua me castiga o meio das coxas. Castigo de língua e dedos. Ando rápido, com o peito aos saltos e o pulso prestes a explodir. E essa tua conversa íntima com minha boca me põe em choque, em transe, em estado de insanidade temporária. Estou prestes a correr. É quente, muito quente, e teus suspiros gemidos fazem vibrar tua língua em minha carne viva. E te suplico continuidade. Estou prestes a morrer. E corro. Corro pelas pedras cintilantes, pelo asfalto frio, pelo chão de terra batida. Corro até cansar as pernas, até perder as forças, até não sentir o chão abaixo dos pés e beijar o precipício que me sorri estrelas - lanço-me suicida no abismo gozoso de tua boca.
Descobri-me pronta. Descobri-me pronta quando segurei aquela criança e vi teus olhos brilhando. E quando lembro de Marcia Duarte dizendo "tenho livre meu ventre para gerar teu filho", meu corpo responde com seios inchados e enjoos sem propósito. Engravido a cada "eu te amo", a cada olhar cúmplice, a cada dia amanhecido ao teu lado. Vou parindo nossos dias, nossos filhos não gerados, nosso amor destilado nesse tanto de prosa sem nexo que talvez só você entenda. Germino tua loucura em meu ventre - loucura nossa. Germino dias, os anos passados, o futuro, nosso futuro. Germino esse amor, essa paixão. Germino você, homem bonito. Meu mundo. Meu encanto real.

quinta-feira, 7 de julho de 2011

existires

Nada de estranho me afeta a ponto de fazer torcer minh'alma. Não que a maldita não berre de ardente cólera ou se refestele em dulcíssima paz. Ela se desfaz, sim, em crepúsculos laranjas ou azuis profundos anoitecidos. Mas minhas glórias e maldições nascem em meu próprio ventre e tomam rumo por baixo da pele, eletrificadas e combustíveis. Meus desejos incitam, minhas vergonhas retraem. Sou meu peso e minha medida. Nada me faz infeliz a não ser eu mesma, minha ira, meu ranger de dentes, meus medos intermitentes - quem não os tem? E não há infelicidade que valha um milésimo da vida que me resta, porque simplesmente não me quero infeliz. Desejo-me. Desejo-me ferozmente onde houver vida, onde houver desejo, onde houver inverno. Simplesmente desejo-me.