EGO

"Eu não sou promíscua. Mas sou caleidoscópica: fascinam-me as minhas mutações faiscantes
que aqui caleidoscopicamente registro."

(Clarice Lispector)

segunda-feira, 31 de março de 2008

simples...


"É mais fácil amar o retrato. Eu já disse que o que se ama é a ‘cena’. ‘Cena’ é um quadro belo e comovente que existe na alma antes de qualquer experiência amorosa. A busca amorosa é a busca da pessoa que, se achada, irá completar a cena. Antes de te conhecer eu já te amava... E então, inesperadamente, nos encontramos com rosto que já conhecíamos antes de o conhecer. E somos então possuídos pela certeza absoluta de haver encontrado o que procurávamos. A cena está completa. Estamos apaixonados."

[Rubem Alves]


sadismo...

Confesso haver um pouco de sadismo em mim. Ou o que quer que seja. Não surge de um desejo infantil de vingança ou mágoas - essas, eu as descarto, são pequenas demais para tomarem meu tempo ou esforço mental - mas de uma vontade louca de que as pessoas caiam para que aprendam a levantar e a caminhar sem muletas. Avaliando por esse aspecto, parece positivo.
No fundo, bem lá no fundo, deve haver algo de bom em mim.


quarta-feira, 26 de março de 2008

o homem do fim do mundo (repostagem)...


Ele caminhou por horas sem saber seu destino. Chegaria a algum lugar, em algum momento. Mas como saber onde parar? Como saber o que o esperava? Precisava de um sinal. Um sinal divino, que fosse. Mas não acreditava em Deus. Não acreditava no que não estava ao alcance de seus dedos, de seus olhos, de seu controle. Em sua mente racional e sistemática, haveria de haver razão para tudo, explicações para todos os fenômenos. E perguntava a si mesmo e aos outros o que não tinha resposta. Ele mesmo as respondia, tentando calcular e investigar os limites do que não podia ver, mesmo sabendo que o subjetivo era incalculável, sem regras, desconcertantemente hipotético. Precisava provar, talvez ao mundo, talvez a si mesmo, que o que chamamos de "amor" era apenas um desencadeamento de ações provenientes de reações químicas, nada mais. Estava carcomido por dentro. Pensar que um gesto poderia ter mudado todo o rumo de sua história o consumia. Talvez não o gesto em si, mas a palavra final. A palavra final decidiu o destino do mundo, de seu mundo particular, infinitamente correto. Sabia que continuaria andando. Só. Míope. Trôpego.

Era o homem da ciência. Era o homem do fim do mundo. O homem que matou a insanidade; a loucura e a liberdade de amar.


terça-feira, 25 de março de 2008

sobre o passado...

passado
pas.sa.do
adj (part de passar) 1 Que passou; decorrido, findo. 2 Imediatamente anterior. 3 Que passou de tempo; avelhantado, velho. 4 Diz-se do fruto que começa a apodrecer. 5 Seco ao sol ou no forno (fruto). 6 Desapontado, enfiado. 7 Atordoado, banzado, espantado.

(Michaelis)

Engraçado como as pessoas agarram-se a colunas ou livros de auto-ajuda para tentar fazer a própria vida um pouco mais vivível, mais consolável. E uso "engraçado" como eufemismo para "tragicômico".
Por isso sinto-me uma excelente estrategista: soldados que se precipitam ou falam demais acabam morrendo no front. Cometem suicídio sem saber. Eu apenas observo. Não olho para trás. Mantenho-me viva. Feliz. Mais feliz ainda por saber que o passado não volta. E que os mortos, meus amigos, não levantam das tumbas. No máximo, deixam os espíritos infelizes vagando em volta do que ainda vive, sem serem notados.
A vida segue. O presente é agora. O futuro ainda está por vir (e num futuro bem próximo, estarei andando de mãos dadas com o dono dos meus sorrisos, porque nos amamos e somos o presente do outro, porque o passado já se foi, passou, ficou no seu lugar de direito - na memória, apenas.)

Postado por Nina



domingo, 23 de março de 2008

para me (des)entender...


"Inútil querer me classificar,eu simplesmente escapulo não deixando. Gênero não me pega mais."

"Aceitar-me plenamente? É uma violentação de minha vida.Cada mudança, cada projeto novo causa espanto:meu coração está espantado.É por isso que toda minha palavra tem um coração onde circula sangue."
(Um sopro de vida)

"Isso é tão vasto que ultrapassa qualquer entender.
Entender é sempre limitado.
Mas não entender pode não ter fronteiras.
Sinto que sou muito mais completa quando não entendo.
Não entender, do modo como falo, é um dom.
Não entender, mas não como um simples de espírito.
O bom é ser inteligente e não entender.
É uma benção estranha, como ter loucura sem ser doida.
É um desinteresse manso, é uma doçura de burrice.
Só que de vez em quando vem a inquietação:
quero entender um pouco.
Não demais: mas pelo menos entender que não entendo."

"O que obviamente não presta sempre me interessou muito. Gosto de um modo carinhoso do inacabado, do malfeito, daquilo que desajeitadamente tenta um pequeno vôo e cai sem graça no chão."

Tudo de Clarice Lispector. A descrição perfeita (ou não) do que sou... a melhor forma de me (des)entender, mesmo sabendo que não é possível rotular o que não se pode definir.


amor vincit omnia...

Continua tudo bem no reino dos sonhos...
Continuamos (e permaneceremos) felizes... e cúmplices. Mesmo que as línguas-víboras e as mentes insanas (mais do que as nossas) desejem o contrário.
Amor vincit omnia.


sábado, 22 de março de 2008

o final...

Quero jogar o telefone contra a parede e vê-lo espatifar-se em mil partes. Quero sentar no canto do quarto, como fazia aos 11 anos, quando me escondia atrás da porta para chorar. Aos 11 anos era diferente. Era mais fácil sumir por alguns instantes - coisa de criança. Já não posso mais. E quero ir para longe, bem longe daqui.
Há uma coisa, uma inquietação, uma falta de explicação, um "não-querer" respostas. Preciso correr, continuar correndo, sentir raiva, medo. Se eu parar, eu morro. Eu preciso de paz, mas não a quero. O coração está prestes a explodir, mal cabe no peito. As batidas estão me deixando sem ar, estão sufocando... Preciso gritar. Preciso voar. Não se pode morrer duas vezes: já estava morta antes. E fui eu que me matei. Matei a mim e a todos que estavam perto, um por um, com um sorriso irônico no canto da boca. E matei lentamente, precisava sentir cada golpe, cada corte profundo da lâmina na carne. Queria ver o horror em seus olhos. Chorava e ria, porque os amava e os odiava ao mesmo tempo.
Saí com as mãos sujas de sangue. Estava imunda, precisava me sentir limpa. Arrastei as mãos pelos corredores e deixei marcas por toda parte. A culpa me corroía, mas o prazer aliviava a dor quase insuportável. Morri ali, por dentro.
Agora olho-me no espelho e vejo um fantasma, vejo alguém que não sou. Vejo a criança novamente. Mas a menina matou o próprio diabo com apenas um sorriso.
Quero voltar para casa e não consigo: esqueci meu endereço. Não sei mais meu nome. Esqueci os nomes dos outros. Esqueci os segredos confiados.
Continuo do outro lado da rua, esperando que alguém me ajude a atravessá-la. Preciso achar o caminho de volta. Preciso me esconder novamente atrás da porta, o único lugar onde posso chorar em paz.
Já não há quem vá me procurar. Estão todos mortos.