EGO
"Eu não sou promíscua. Mas sou caleidoscópica: fascinam-me as minhas mutações faiscantes
que aqui caleidoscopicamente registro."
(Clarice Lispector)
sexta-feira, 29 de fevereiro de 2008
quinta-feira, 28 de fevereiro de 2008
Lupercus e Aera

A imensa lua, esplendorosa, pairava no alto do véu de negror infinito ofuscando as pequenas e tristes estrelas. Ártemis parecia se contemplar diante do lago espelhado e derramava seu luar de prata na pele alva e suave da ninfa que se banhava à meia-noite. A água deslizava pela seda de sua pele, se escondendo pelas curvas perfumadas, na carne macia e rósea, pelos cachos, entre os seios, entre as coxas. Uma visão divina, capaz de despertar toda a fúria do demônio da libido no filho de Pã que observava, à distância, escondido nos ramos de espinhos na margem, a bela ninfa do canto, Aera. Acreditem quando digo que seus pensamentos eram os mais sórdidos possíveis; as mãos tremiam ao imaginar o toque de suas garras cravadas profundas no quadril da ninfa, puxando-a ferozmente contra si em uma curra alucinada. Ecoavam gemidos, gritos, uivos e balidos por toda a floresta noturna nas fantasias de Lupercus. A boca espumava de luxúria, os olhos ganhavam um brilho de extrema malícia, e o sexo latejava de desejo em rasgar a flor incólume de Aera.
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O fauno ouvira Aera pela primeira vez após se fartar de vinho em um bacanal de Dionísio, no coração de uma floresta desconhecida e, andando a esmo, exausto e satisfeito, deixou-se apanhar por Morfeu. Seus sonhos ébrios foram varridos de repente, e a voz, leve e angelical como o cristal que tilinta ao sabor da brisa primaveril, chegou-lhe à alma, fazendo o aço do seu coração se retorcer, abrindo feridas incuráveis em seu peito. Lupercus chorou ao ouvir tal voz repleta de candura e beleza; nem Orfeu ao descer nas profundezas de Hades seria capaz de fazer isso ao devasso sátiro. Desde então, ele persegue o hálito doce no vento, a voz que o despertou dos pesadelos. Lupercus tornou-se obcecado em encontrar a única ninfa imune ao encantamento de sua flauta, siringe. Por vales, montanhas, abismos e campos o fauno passou, até encontrar o santuário onde Aera vivia, nos domínios da deusa amazona. Sua presença no lago onde Narciso se apaixonou por seu reflexo, nesse templo natural sagrado, já era motivo suficiente para que as caçadoras arqueiras soltassem os mastins farejadores contra o intruso, e o fizessem em retalhos. Se alguma guerreira descobrisse as intenções do sátiro, elas o alvejariam com suas flechas envenenadas e o arrastariam por todo o caminho de volta para jogar seu corpo aos pés de seu senhor. Talvez esse pretexto pudesse ser o começo de uma guerra entre Ártemis e Pã. Lupercus arriscava a vida sem receio, sabia que valia a pena qualquer risco o tesouro que almejava. E não se preocupava com as conseqüências de sua escolha: ninguém era imune ao desejo, muito menos os sátiros.
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Nas sombras, furtivo, ele esperava próximo às vestes de Aera para apanhá-la distraída com uma rede trançada pelos fios do destino das Moiras. Para conseguir que as irmãs o ajudassem, ele abriu mão de sua longa existência encurtando sua própria vida para poder prender Aera e fazê-la submeter-se a sua volúpia. Do que lhe valeria uma vida longa se jamais pudesse ter o que mais queria? Depois de tê-la presa em sua rede, bastaria obrigá-la a beber do vinho ardente de Dionísio que Lupercus trazia em seu odre para morrer feliz, dentro do que mais amava. Finalmente, Aera parecia ter terminado seu banho de luar e prata; uma nuvem negra selou a visão de Ártemis. Então, a ninfa veio de encontro à margem buscar sua indumentária. Lupercus estava ansioso, não conseguia imaginar a felicidade perversa e pervertida de ter aquele sonho em seus braços.
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Surpresa, Aera nem tentou resistir, a rede caiu sobre ela, e logo os braços e mãos vieram arrebatá-la. O odre caiu por terra quando Lupercus percebeu que Aera estava disposta a se entregar; ela retribuiu seu raptor com beijos, e suas mãos e boca procuraram o sexo do sátiro para adorá-lo. De joelhos, ela arranhava as costas do fauno que ofegava e cambaleava de excitação ante ao inesperado milagre. Aera trouxera Lupercus ao único lugar onde Ártemis jamais desconfiaria que um fauno fosse procurá-la, em sua casa; por isso ela escolheu o mais corajoso e faminto de amor dos malditos filhos de Pã e esperou até que os ventos cegassem sua mãe para poder se entregar a ele. Famintos um do outro, ele a colocou de quatro e a cavalgou usando seus cachos como rédeas. O suor escorria e pingava nas costas da ninfa que fraquejava, tendo suas forças roubadas pelo fogo que queimava dentro do seu corpo, ardendo e aumentando mais e mais. De súbito, o gozo semeou paixão pela terra, e momentaneamente aniquilados, eles derrotados, deitaram no leito de folhas e juraram não se separar mais. Cada dia, cada noite, seria único, de canto, vinho, música, poesia, uivos, gemidos e prazer.
POSTADO POR E AGORA, JOSÉ?
terça-feira, 26 de fevereiro de 2008
Somos todos poetas...
Assisto em mim a um desdobrar de planos.
as mãos vêem, os olhos ouvem, o cérebro se move,
A luz desce das origens através dos tempos
E caminha desde já
Na frente dos meus sucessores.
Companheiro,
Eu sou tu, sou membro do teu corpo e adubo da tua alma.
Sou todos e sou um,
Sou responsável pela lepra do leproso e pela órbita vazia do cego,
Pelos gritos isolados que não entraram no coro.
Sou responsável pelas auroras que não se levantam
E pela angústia que cresce dia a dia.
[Murilo Mendes]
as mãos vêem, os olhos ouvem, o cérebro se move,
A luz desce das origens através dos tempos
E caminha desde já
Na frente dos meus sucessores.
Companheiro,
Eu sou tu, sou membro do teu corpo e adubo da tua alma.
Sou todos e sou um,
Sou responsável pela lepra do leproso e pela órbita vazia do cego,
Pelos gritos isolados que não entraram no coro.
Sou responsável pelas auroras que não se levantam
E pela angústia que cresce dia a dia.
[Murilo Mendes]
a agonia...
Essa coisa de agonia que me corrói, que me perturba, que me faz querer mais do que posso, nesse meu frisson, nessa busca pelo entendimento e no descaso pelas explicações. Quero tentar entender, não quero explicar. Quero morrer me indagando, mas não quero as respostas. A busca pelas respostas move minhas pernas e o meu espírito inquieto, mesmo não sabendo em que direção seguir. Sigo experimentando para que, no final da vida, possa dizer que provei do gosto de quase tudo. Sem medo.
Postado por Nina
sonho quase lúcido...
Respirava sozinha na cama e deixava o ar abandonar completamente os pulmões, até sentir os pés dormentes. A realidade começava a fugir, porém não me abandonava completamente. O ébrio aproximou-se, sorrateiro, entre os meus lençóis e suspiros, quando o corpo já me escapava.
O ponto luminoso no canto da mente (onde os números passeavam ao ritmo da respiração) tornou-se uma esfera verde e reluzente. Mas logo Morfeu tomou-me de assalto, e o que era quase realidade perdeu-se em nuvens brancas de sonho...
(Mas amanheci encharcada de rosas novas...)
"Eu te deixo aroma até nos meus espinhos."
(Cecília Meireles)
O ponto luminoso no canto da mente (onde os números passeavam ao ritmo da respiração) tornou-se uma esfera verde e reluzente. Mas logo Morfeu tomou-me de assalto, e o que era quase realidade perdeu-se em nuvens brancas de sonho...
(Mas amanheci encharcada de rosas novas...)
"Eu te deixo aroma até nos meus espinhos."
(Cecília Meireles)
Postado por Nina
caleidoscópio, a música...
Caleidoscópio
[Paralamas do Sucesso]
[Paralamas do Sucesso]
Não é preciso apagar a luz
Eu fecho os olhos e tudo vem
Num caleidoscópio sem lógica
Eu quase posso ouvir a tua voz
Eu sinto a tua mão a me guiar
Pela noite a caminho de casa
Quem vai pagar as contas deste amor pagão
Te dar a mão, me trazer à tona prá respirar
Quem vai chamar meu nome
Ou te escutar
Me pedindo prá apagar a luz
Amanheceu, é hora de dormir
Nesse nosso relógio sem órbita (nosso relógio de não marcar horas)
Se tudo tem que terminar assim
Que pelo menos seja até o fim
Prá gente não ter nunca mais que terminar
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