EGO

"Eu não sou promíscua. Mas sou caleidoscópica: fascinam-me as minhas mutações faiscantes
que aqui caleidoscopicamente registro."

(Clarice Lispector)

quinta-feira, 31 de janeiro de 2008

vícios...

(Não me culpem por tentar, ao menos uma vez, fazer poesia...ou o que quer que isso possa parecer...)

Não, eu me nego! Isso tem que parar!
Eu quero e não posso...
Velhos vícios em novas doses...
Até quando, meu Deus?
Até quando?

E o pulso torpe continua a pulsar
A vala, o fosso
Covas rasas de dissabores
Cerro os olhos para não me curvar
Afasta! Não posso!
Velhos desejos a me incitar
Arranca do peito essas dores!

E se sigo, louca, cega, tropeçando
Continuo a te perguntar
Até quando, meu Deus?
Até quando?



sobre o demônio...


O demônio ansiava pelo nascimento de seu filho. Esperava o momento de rebentar o choro da criança para que Nina se tornasse definitivamente uma aberração.
Lembrou-se da primeira vez que seus olhos pousaram na pequena Nina. A humanidade conferia-lhe uma doçura incomparável, capaz de deixar de joelhos o mais valente dos mortais, o mais sublime dos deuses, o mais abominável dos demônios. Não, não podia sucumbir à beleza etérea da mulher que carregava no sangue a maldição da humanidade. Precisava desviar os pensamentos da alvura da pele, da graça amável das formas, da brandura das coxas que tomou à força. Sentia queimar um fogo desigual dentro do peito.
Não era apenas o velho desejo mórbido que o consumia. E pela primeira vez a besta sentiu medo. A paixão era a maior das ruínas, a mais infame das maldições. Até mesmo para o próprio demônio. Até mesmo nos cantos mais escuros do inferno.


o vazio da cama...

A cama ficou vazia.
Faltou inspiração, até mesmo para dormir.
A lua se escondeu, não quis brincar comigo. O travesseiro continuou intacto, imóvel, mudo. A cama ficou fria.
Só me resta esperar. Esperar que a nova noite traga de volta a música e a lua.
Eu preciso dançar.


quarta-feira, 30 de janeiro de 2008

Quer saber o que eu faria? Falava no seu ouvido "eu te amo" até o mundo acabar...

versos...

Ela não sabia fazer poesia. Sabia escrever, mas poesia... nunca!
Leu livros, pediu conselhos, rabiscou centenas de folhas de papel, verificou a órbita de Júpiter. Mas a poesia não estava lá.
Livrou-se dos sapatos, comprou rosas, viu filmes... E nada da bendita poesia.
Guardou lápis e papéis na gaveta da escrivaninha, sem esperanças de encontrar as rimas para os versos que desejava escrever.
Sentiu-se perdida e vazia.
Um dia ela descobriu as rimas perfeitas, a poesia nascendo da alma. Ele escrevia versos em suas costas nuas entre goles de vinho direto da garrafa e poemas de Drummond recitados na cama.
Eles faziam poesia enquanto aprendiam a dançar...


o diário (II)... memórias de uma tanatopraxista...

"Hoje acordei mais feliz, querido diário...
Nunca imaginei que aquele corpo pudesse me fazer tão feliz... Mesmo calado, caladinho ao meu lado, ele faz minhas noites pulsarem de modo arrebatador, onde tenho espasmos de corpo inteiro. É maravilhoso, diferente de todos os homens que já tive.
O roçar de nossas coxas arrepia a minha alma, faz meus olhos revirarem...
Tenho tanto medo de perdê-lo... Mas deitado ao meu lado, vejo que ele não terá forças para me deixar, para fugir de nossa alcova de cetim vermelho.
O amor verdadeiro jamais morre...
Despeço-me aqui, querido diário. Chegou a hora do nosso café da manhã. Para mim, chá e torradas; para ele, outra injeção de conservantes na carótida.

(Acho que preciso aumentar a dose... Meu amor está tão pálido...)"


terça-feira, 29 de janeiro de 2008

sobre a chuva...

As mansas horas do dia rebentaram em laranja nos dourados campos de trigo.
Nuvens passeadeiras escondiam-se atrás dos verdes morros que cortavam o azul do céu. Era a paisagem perfeita do dia ideal. Mas logo as nuvens enfureceram-se e tornaram-se cinzas, pesadas, graves, ruidosas. E a volumosa torrente morna jorrou do céu.
Homens dançavam e celebravam a chuva sagrada nos campos.
Mal sabiam que o líquido era o gozo divino que escorria sobre a terra.