EGO

"Eu não sou promíscua. Mas sou caleidoscópica: fascinam-me as minhas mutações faiscantes
que aqui caleidoscopicamente registro."

(Clarice Lispector)

segunda-feira, 11 de abril de 2011

florescer

Ele chegou antes que o sol beijasse a janela. Entrou sorrateiro por baixo do lençol para me [des]encontrar nua. Estava nua em todos os sentidos - sem roupa, sem pensamentos rápidos, sem proteção. O sotaque do Alentejo brindou meus ouvidos balbuciando aquelas duas sílabas carinhosas que só faziam sentido se ele as pronunciasse.
- Diz que me ama, Nina...
Sentia raiva por ele ser tão intolerante, tão arrogante, tão politizado, tão bonito. Mas havia algo macio naquela muralha aparentemente impenetrável. Havia um lugar nele que só eu conhecia - e ele odiava admitir isso. Era detestavelmente sarcástico quando desejava testar meus limites - mas aprendi a reconhecer pequenos sinais que denunciavam suas intenções [quaisquer que fossem].
Ainda estava magoada por três ou quatro palavras mal empregadas na noite anterior. Ele conseguia me machucar fundo, me afetar de um jeito que só afetam as pessoas de extrema importância. Resmunguei qualquer coisa que simulasse desinteresse. Mas não havia como fugir da voz, da presença, da perturbação vulcânica que ele causava quando me invadia com o cheiro do cabelo comprido, da barba mal feita, do cigarro insistente. Mais uma vez as pequenas ranhuras eram deixadas de lado, entre juras de amor e violação amorosa consentida. 
- Diz que me ama agora, Nina... pois foi assim que sempre quis te fazer um filho...
E meu ventre sorriu enquanto o sol lambia as cortinas do quarto.

sábado, 9 de abril de 2011

aqui, no tempo presente

Olhei com tanta frieza aquela foto que me assustei. Vi-me tão longe do lugar onde estávamos que o terror me tomou todo o corpo - horror no coração: horror porque nada na memória que aquele rosto me traz me melindra, me aquece ou excita. De repente não lembro mais do cheiro, do movimento que a língua fazia na minha boca ou de como era o sexo. Como as pessoas podem esquecer essas coisas? Sinto-me um monstro insensível. Talvez eu não seja um monstro - talvez o fim das coisas esteja mesmo fadado ao esquecimento. No fundo, é um pouco engraçado. Não, não é insensibilidade. Na verdade, tudo é tão bonito do lado de cá do jardim que não me importa mais nada que houve ou que possa ter doído em algum momento. Uma das coisas boas de ser quem eu sou - e como eu sou - é a velocidade com a qual "apego" e "desapego" acontecem. E saber colocar as coisas em tempos certos e lugares mais certos ainda - o passado precisa reconhecer seu lugar. E agora, de peito aberto e cabelos ao vento eu digo: como é bom estar sempre no presente! Aqui eu me sei, eu me sinto, eu me vejo. Aqui eu sorrio.

quinta-feira, 7 de abril de 2011

O que será (à flor da pele) - Chico Buarque



O que será que me dá
Que me bole por dentro, será que me dá
Que brota à flor da pele, será que me dá
E que me sobe às faces e me faz corar
E que me salta aos olhos a me atraiçoar
E que me aperta o peito e me faz confessar
O que não tem mais jeito de dissimular
E que nem é direito ninguém recusar
E que me faz mendigo, me faz implorar
O que não tem medida, nem nunca terá
O que não tem remédio, nem nunca terá
O que não tem receita


O que será que será
Que dá dentro da gente e que não devia
Que desacata a gente, que é revelia
Que é feito uma aguardente que não sacia
Que é feito estar doente de uma folia
Que nem dez mandamentos vão conciliar
Nem todos os ungüentos vão aliviar
Nem todos os quebrantos, toda alquimia
Que nem todos os santos, será que será
O que não tem descanso, nem nunca terá
O que não tem cansaço, nem nunca terá
O que não tem limite


O que será que me dá
Que me queima por dentro, será que me dá
Que me perturba o sono, será que me dá
Que todos os ardores me vêm atiçar
Que todos os tremores me vêm agitar
E todos os suores me vêm encharcar
E todos os meus nervos estão a rogar
E todos os meus órgãos estão a clamar
E uma aflição medonha me faz suplicar
O que não tem vergonha, nem nunca terá
O que não tem governo, nem nunca terá
O que não tem juízo

When the wild wind blows - Iron Maiden

terça-feira, 5 de abril de 2011

inquietação 1

cala
porque há barulho nesse recinto
e preciso do silêncio da tua voz
reverberando na calada da minha memória.

segunda-feira, 4 de abril de 2011

sem título VI

odeio se me questiona
se me fere
se me fecha os olhos
e me abre essas portas do corpo
se me escancara
e me rouba palavras
fôlego
sofrimento
odeio se me navega
e me revira as marés
e me cria desmesuras
porque há diferença
- tanta diferença -
nesse reflexo macho de mim
porque te olho e me vejo linda
- violentamente linda -
e te procuro onde some
e te acho nessa lonjura de fim
onde há ausência
onde há segredo
onde há miséria
onde há saudade
desse futuro mal vingado
mal parido
que me sorri
com dentes gastos
e me viola
me corrompe
me sucumbe
bem no meio desse mar de sal
- no lugar do tempo atravessado -
no meio das coisas não vividas
lugar de querer contínuo
destino breve e imantado.

domingo, 3 de abril de 2011

fome

cães e lobos aprazem esse meu gosto
- mesma medida e proporção -
porque sou cruza estranha
interespécie
coisa de lince e serpente
nascida do ventre de Vênus
mestiça imperfeita e sem molde
fera que espreita, espera
o sinal de caninos saltados
nesses dias em que se mata a fome
com um tanto de morte
para satisfazer o que há, enfim, de vida,
de pulsar, de querer,
e voltar para a solidão
a que me condena o próprio corpo.