EGO

"Eu não sou promíscua. Mas sou caleidoscópica: fascinam-me as minhas mutações faiscantes
que aqui caleidoscopicamente registro."

(Clarice Lispector)

domingo, 15 de março de 2009

sobre a cafonice...

Por que toda música cafona tem, lá no fundo, bem no fundinho, alguma coisa a ver com a vida da gente?
Músicas românticas, cartas ou declarações de amor, flor no cabelo, conflitos existenciais. Há coisas mais piegas que essas?
Talvez a vida seja mesmo uma grande Ode à Cafonice...

sábado, 14 de março de 2009

feito carne...


Ela acende um cigarro a cada três minutos. Traga como se cada um fosse o último, como se precisasse ingerir toda a fumaça de uma só vez antes de morrer. Mas a morte não vem.

Ela se droga cada vez que o corpo pede, quando transpira e treme. Vende o corpo por alguns trocados na imundície dos cantos escuros pelas madrugadas. Ela sorri à beira do cais - e à beira do caos - tentando imitar as putas aristocráticas, seduzindo qualquer um por qualquer coisa. Um verme oferece um punhado de balas por sua boca. Os olhos brilham com a possibilidade de adoçar a boca que só sabe sentir o amargo do sêmen e o azedo do vômito. Ela se ajoelha sem hesitar.

Ela caminha trôpega pelas vielas contando moedas quando o dia amanhece. Compra um maço de cigarros e um pão que devora com unhas e dentes sujos. Senta à sombra do beco e retoma a rotina do vício até esgotar o último centavo, até o sol baixar e a noite trazer o disfarce perfeito aos indigentes e desgraçados.

Mais uma vez ela sobe ao picadeiro de sua pequena desgraça, oferecendo-se a quem quisesse por qualquer miséria. É uma peça à venda e avariada pelo degeneração e libertinagem.

Enquanto pende na vitrine da escória, apodrece por dentro. Feito carne.


sexta-feira, 13 de março de 2009

perguntas, respostas, mistérios...


De alguma forma, sinto como se tivesse perdido o início do espetáculo.

Talvez tenha sido a minha ausência. Talvez tenha sido a sua.

Toda ausência causa uma espécie de vazio, de dormência. Eu não sei lidar com a dormência. Preciso de uma dose extra de adrenalina, de calor, de cor, de dor. Não a dor melancólica da solidão, mas a dor do exagero: exagero de presença - sim, porque a presença também faz doer -, exagero de contato, exagero de olhos, bocas, mãos.

Mas olho de novo para o palco e os atores parecem tão entretidos com seus papéis que não notam a minha presença - a única presença. Todas as cadeiras ao meu redor estão vazias. Pergunto-me o que estou fazendo ali. Sinto-me constrangida. Busco estupidamente uma resposta dentro de minha bolsa. Mas nem os batons revirados, os papéis perdidos ou as moedas espalhadas podem me responder. Há uma nuvem pesada de mistério acima de minha cabeça. Há um buraco esperando tragar-me abaixo dos pés.

O espetáculo chega ao fim. Os atores recolhem-se ignorando minhas dúvidas. Agora o palco também está vazio.
Mas como todo espetáculo que se preze, resta-me aplaudir de pé o que pude assistir. Sempre há um fim para todas as coisas.
É hora de voltar para casa. Eu, eu mesma e minhas incertezas.

domingo, 8 de março de 2009

sobre a mulher de José...

A mulher de José não é Maria.
A mulher de José arde, chora, é passional, sente ciúme.
A mulher de José gosta de sexo - do sexo com José, do sexo de José.
A mulher de José goza.

A mulher de José peca, geme, queima.
A mulher de José é divina, profana, pura, puta.
A mulher de José carrega a origem do mundo entre as coxas.
A mulher de José é obscena.

A inocência e a indecência residem na mulher de José.
O início de todas as coisas esconde-se no coração da mulher de José.
Ser mulher significa ser a mulher de José.

Eu sou a mulher de José.

sábado, 7 de março de 2009

LÁBIA


Lábia
.
Deus mora em seus pequenos Grandes lábios
O Diabo se esconde em seus pequenos Grandes lábios
A Cura se encontra em seus pequenos Grandes lábios
O Veneno escorre dos seus pequenos Grandes lábios
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Meu vício se satisfaz com os seus pequenos Grandes lábios
Minha língua abre os seus pequenos Grandes lábios
Minha barba fere os pequenos Grandes lábios
.
Néctar, seiva, chuva, mar, sangue, sal, vinho, água-viva
Beijo molhado, macio, quente, suplicante, provocante, delicioso
.
Que dá a vida, que mata, ferida que fere com prazer
Se Pandora abriu a caixa, eu abro suas pernas
Se Eva provou do fruto proibido
Eu aplico o seu castigo
.
O segredo do sorriso de Monalisa está em seus pequenos Grandes lábios
A razão dos meus esforços são os seus pequenos Grandes lábios
Seu coração fala através dos seus pequenos Grandes lábios
Beijo Afrodite através dos seus pequenos Grandes lábios
E assim cumpro a minha promessa
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Seja como for, hei de te beijar sempre
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JOSÉ RODOLFO KLIMEK DEPETRIS MACHADO

domingo, 1 de março de 2009

sobre a verdade

Eu realmente só vejo as coisas do jeito que eu sou. Por isso não acredito nas cores que os outros enxergam. Minha referência é a minha própria paleta. Com ela pinto o mundo como eu quero.

miniuniverso

O vazio das minicertezas me dissolve quando habito meu porão, meu miniuniverso. E, diferente dos outros porões, o meu é claro, limpo, vazio. Não há sujeira ou coisas entulhadas. Há o vazio e eu. Há um silêncio ensurdecedor. E eu me percebo solúvel, invisível, instável.
Há uma fissura no chão. Meus dedos correm ao longo dela, sentindo a falha arranhar a pele. Mas sei que não há outro chão, não há nada abaixo de mim: o som dos passos é oco.
Sinto um calor intenso subir a garganta, crepitando desde o peito. É outra convulsão hormonal. É meu ópio, meu próprio veneno a me queimar por dentro. É a falta de explicação para essa aflição pressionando meu juízo.
Sinto-me absoluta, quase um deus. Sinto que inferno e céu não estão em lugar algum a não ser dentro de mim. A claridade é tão forte que me cega, faz arder os olhos. Preciso de um pouco de escuridão. Porque os deuses também são bipolares - eu preciso de um pouco de tudo.
E quando me deito de ouvido contra o chão frio, ouço apenas as batidas do meu peito rareando; estou me dissolvendo novamente, adormecendo, desaparecendo...