EGO

"Eu não sou promíscua. Mas sou caleidoscópica: fascinam-me as minhas mutações faiscantes
que aqui caleidoscopicamente registro."

(Clarice Lispector)

sexta-feira, 14 de março de 2008

múltipla...

Ela dividia-se em tantas partes, tantas vezes... A multiplicidade tornava os pequenos fragmentos leves, quase invisíveis, partículas que voavam e se dispersavam, independentes. Era a inconstância entre o ser e o estar. Era a alma feita de nuvens, nuvens que quando se dispersavam revelavam o sol ou os pequenos pontos cintilantes no azul do céu noturno. Da mesma forma, as nuvens - pequenos fragmentos de alma - uniam-se e escureciam o dia, roubavam o brilho da noite. E então o espírito tornava-se mais pesado que o corpo. Mas tornava a ficar leve novamente, numa dança cíclica interminável, em que seus dias e horas corriam de forma aversa ao mundo, em movimentos interiores ininterruptos e hormonais.

Postado por Nina

quinta-feira, 13 de março de 2008

trechos...

"(...)
Pelo meu rosto branco, sempre frio,
Fazes passar o lúgubre arrepio
Das sensações estranhas, dolorosas…

Talvez um dia entenda o teu mistério…
Quando, inerte, na paz do cemitério,
O meu corpo matar a fome às rosas!"

(trecho de Mistério, Florbela Espanca)

*****

"Eu escrevo sem esperança de que o que eu escrevo altere qualquer coisa. Não altera em nada... Porque no fundo a gente não está querendo alterar as coisas. A gente está querendo desabrochar de um modo ou de outro..."

"Renda-se, como eu me rendi. Mergulhe no que você não conhece como eu mergulhei. Não se preocupe em entender, viver ultrapassa qualquer entendimento."

"Enquanto eu tiver perguntas e não houver respostas... continuarei a escrever."

"Não quero ter a terrível limitação de quem vive apenas do que é passível de fazer sentido. Eu não: quero uma verdade inventada."

(Clarice Lispector)

quarta-feira, 12 de março de 2008

certos dias...

Há certos dias em que surge o gosto metálico na boca. O sal escorre pelo rosto.
Garras rasgam o ventre e o estômago atrofiado. Quero chorar mais um pouco. Quero gritar.
E a voz, onde anda? O inferno estendeu-se mais um pouco e os miseráveis puseram-se a sorrir.
Silêncio, por favor. Todas essas vozes confusas surgem na sobriedade.
É melhor permanecer na insanidade dos pensamentos que voam.

Postado por Nina


domingo, 9 de março de 2008

bocas...

Pastel sobre cartolina (Andressa Furtado)


sobre a infelicidade...

A infelicidade é outro mal desse bicho estranho chamado homem (novamente não especifico o gênero masculino, até porque as mulheres gostam muito mais de fazer o tipo infeliz). Há uma diferença entre infelicidade e tristeza (já falei sobre isso antes? Ah, não, havia falado sobre sensualidade versus vulgaridade, outro tema bem interessante).
A melancolia é algo passageiro, transitório, interno. Vem, fica um ou dois dias, e vai embora como aquela prima chata da sua avó que resolveu vir passar o final de semana (e dormir no seu quarto, o que é ainda pior). A tristeza até faz bem, faz olhar um pouco para dentro naquele momento em que precisamos da tal introspecção. Quem diz que sorri o tempo todo mente; até os felizes e bem resolvidos têm seus dias ácidos. Sorriam, amigos! Vocês são normais. Podem economizar o dinheiro da terapia.
Agora, há os infelizes. Pior que os infelizes, só os que fazem apologia à infelicidade. Esses, sim, são dignos de umas boas palavras duras de vez em quando. Quem não cai, não aprende a levantar; quem não se machuca, não aprende a deixar cicatrizar e fica enfiando o dedo na porcaria do machucado para arrancar a tal casquinha, pelo simpes prazer de ver sangrar de novo. E chora, chora, chora. Vive andando de muletas.
Mas o pior de tudo é culpar os outros pela própria infelicidade. Isso é o cúmulo (com o perdão da expressão) da babaquice. Ninguém é responsável pela sua infelicidade. Você se faz infeliz, pequeno, castigado pelo mundo, pelos deuses, por tudo o que há de externo a você. Mas a infelicidade, meus amigos, é um câncer. Ele nasce por dentro e vai te corroendo, te consumindo, acabando com você aos poucos, numa morte lenta e lamacenta.
Perdeu o emprego? Paciência. É hora de procurar outra coisa, talvez você descubra algo melhor. Levou bomba na faculdade? Acontece. Corra atrás e estude mais no próximo período. Levou um pé na bunda do namorado (ou namorada)? Foda-se. Isso acontece o tempo todo. Ninguém é obrigado a te amar pra sempre, mesmo que seja esse o desejo de quem gosta. Olhe para os lados e abra-se para as possibilidades.
O que quero dizer com tudo isso? Que é uma imensa perda de tempo ficar buscando justificativas, causas, culpados. Devia ser muito mais proveitoso buscar novas alternativas, saídas, soluções.

As mulheres, particularmente, têm o dom irritante de fazer da infelicidade um negócio grandioso. Sinceramente, sinto vontade de matá-las. Deviam fazer mais sexo. Ou comer mais chocolate (o que estiver mais facilmente ao alcance). Doses maciças de serotonina sempre fazem bem.

Sempre fui feliz. Fui feliz quando acertei, e mais feliz ainda nas vezes em que errei, pois aprendi com todos os meus erros. E levantei, sorrindo pro mundo.

Hoje sou mais feliz ainda, pois sinto que, enfim, estou fazendo todas as escolhas certas. Escolhas que me fazem sorrir. E perder o medo. Definitivamente.

Postado por Nina

sábado, 8 de março de 2008

mulher...

Não quero outro sexo. Quero ser sempre mulher, complicada, cíclica, hormonal, indecente; o jardim que floresce independente de tempo ou estação, a metamorfose sem prazo para se completar.

Não quero outro corpo. Os seios já não são pueris. As ancas alargaram. Cada marca em meu corpo conta uma parte de minha história: as linhas de expressão, a cicatriz dos partos, as estrias das gestações.

Outra alma? Nunca. Sou feliz com minha alma que sofre pelos filhos, que chora de tristeza e alegria, que é exageradamente protetora e feroz. Minha alma que absorve o mundo.

E outro amor? Não, não quero outro amor. Quero esse amor que me faz sorrir, que me surpreende, que me assusta, que me faz arriscar versos e me faz sonhar com felicidade sem fim, acreditando em milagres. Esse amor que me faz cantar. Esse amor que me transforma em menina novamente, e ao mesmo tempo me faz crescer. Esse amor que me faz cadela, puta, anjo, profana, divina. Esse amor que me faz mulher. Sua mulher.

(Obrigada, José. Um agradecimento ao homem que me fez esquecer os contratempos de ser mulher. Quero assumir minha condição feminina de novo, e de novo, e de novo... por todas as vidas que vierem pela frente... desde que você esteja sempre por perto.)

Postado por Nina